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18 Fev
Picadinho de sono: sono polifásico traz riscos à saúde 17:37
Picadinho de sono: sono polifásico traz riscos à saúde
A cena se repete: na mesa do bar, o indivíduo diz que está sem tempo para dar conta de todos os compromissos de sua atribulada vida moderna. O trabalho anda consumindo bem mais do que as 8 horas contratuais. Ainda tem a pós-graduação, o curso de inglês e a atividade física, que ele vive boicotando. A mulher e o chope com os amigos viraram exceção na rotina. Então um amigo lança aquela: “E o que você faz da meia-noite às seis?”

A frase virou piada porque a resposta é óbvia. Ou era. Em tempos de atribuições excessivas, não falta gente aderindo ao sono polifásico, que substitui as noites dormidas por sonecas de 20 a 30 minutos a cada 4 ou 6 horas. O advogado e professor universitário Kenji Taniguchi descobriu na internet e decidiu experimentar para conciliar a rotina de aulas e audiências com sua atividade de programador de games online. Primeiro tentou dormir quatro períodos de 1 hora, mas não aguentou o cansaço (veja no quadro ao lado). Hoje ele estica o sono da madrugada para três horas e tira dois cochilos ao longo do dia. “Você dorme pouco, uma hora que seja, e acorda como se tudo tivesse zerado”, conta. “Uso muito para preparar aula. Dou uma cochilada rápida, volto e faço o trabalho tranquilamente.”

Entre os frequentadores de fóruns sobre o tema e usuários da técnica, a rotina fracionada de Kenji é chamada de Everyman — existem ainda as modalidades Uberman, com seis cochilos de 20 minutos a cada 4 horas, e a Dymaxion, com sonecas de 30 minutos em intervalos de 6 horas. O método não é novo. Seus entusiastas sustentam a hipótese de que Leonardo Da Vinci foi um dos primeiros a usá-lo de maneira sistemática. Calcula-se que, dormindo apenas duas horas diárias divididas em cochilos de 20 minutos, o gênio italiano tenha somado o equivalente a 20 anos de vigília aos seus 67 de vida.

A história do artista motivou os estudos do neurologista ítalo-americano Claudio Stampi, fundador do Instituto de Pesquisa em Cronobiologia, em Massachusetts, nos Estados Unidos. Stampi observou que o procedimento mantém o corpo funcionando de maneira satisfatória e melhora o desempenho cognitivo. “O sono polifásico tem potencial para aplicação prática em diversas áreas, quando o sono noturno de 8 horas ininterruptas não é possível”, afirma o pesquisador em seu livro Why we nap? Evolution, chronobiology, and functions of polyphasic and ultrashort sleep (Por que cochilamos? Evolução, cronobiologia e funções do sono polifásico e ultracurto, em tradução livre).

RELÓGIO BIOLÓGICO INVERTIDO
O psicólogo e programador tcheco Tomás Vortuba desperta entre 9h e 10h. Depois de tomar café, trabalha durante 4 horas consecutivas. Almoça e, por volta das 14h, dorme 23 minutos. Trabalha de novo e, às 20h, tira mais um breve cochilo. Antes da soneca da meia-noite, também de 23 minutos, sai para se divertir com os amigos. Aí só volta a dormir às 5h ou 6h da manhã. Adepto do sono polifásico há quatro anos, ele se interessou tanto pelo assunto que decidiu transformá-lo no tema de sua monografia. “Posso trabalhar em mais projetos que antes, tenho maior capacidade para resolver problemas complexos e mais tolerância à frustração”, avalia.

Mas, como Kenji, Tomás teve dificuldades no início. “Meu corpo não sabia o que eu estava fazendo. Levei cerca de três semanas para me adaptar totalmente”, conta. Até o sono Uberman ele testou. “Foi uma experiência interessante, porque minha mente estava funcionando bem, mas o corpo não estava feliz. Aprendi que sem o corpo, a mente não pode estar viva.”

Qualquer organismo vivo possui um ritmo biológico que atua em vários níveis — molecular, bioquímico, fisiológico e comportamental. De acordo com teorias da cronobiologia, ramo da ciência que estuda os fenômenos biológicos regidos por um período determinado, funcionamos predominantemente sob influência dos ritmos cicardiano e ultradiano. O primeiro refere-se a ciclos que ocorrem em intervalos de 24 horas, como o sono e a renovação celular. Já no segundo, as interações ocorrem em períodos de no máximo 20 horas, caso da respiração e dos batimentos cardíacos. A sacada do sono polifásico está em adaptar o nosso ciclo de sono para o relógio mais curto. Assim, é possível reduzir tanto os intervalos como a quantidade do tempo de sono. “Na primeira fase da vida, todo mundo tem sono polifásico”, diz a neurologista Rosa Hasan, coordenadora do Laboratório de Distúrbios do Sono do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo. O período de descanso noturno aumenta progressivamente, até chegar ao ponto em que dormimos a noite toda e passamos o dia despertos.

MATEMÁTICA DO ESTRESSE
A questão é que picotar as noites não é biologicamente natural e, por isso, pode trazer problemas. Durante o sono, o organismo produz hormônios e proteínas essenciais ao seu funcionamento e à sua recuperação. A vantagem de condicionar o corpo a dormidas curtas seria entrar mais rápido na chamada fase REM (sigla para Rapid Eye Movement), fundamental para restabelecer as funções cognitivas. “Essa etapa ocupa por volta de 20% a 25% do sono. Mas, em oito horas, metade é do sono de ondas lentas, que também é muito importante”, enfatiza Mônica Andersen, chefe da disciplina de medicina do sono na Universidade Federal de São Paulo. Ao reduzir drasticamente as horas dormidas, o corpo libera uma quantidade maior de adrenalina e cortisol, os hormônios do estresse. Essas substâncias ajudam a nos manter acordados, o que pode ser propício em uma situação emergencial. “A desvantagem está em produzir cronicamente um estado de alerta”, pondera Marilda Lippi, psicóloga especializada no controle do estresse. Não faltam estudos que relacionam poucas horas de sono a doenças cardiovasculares, diabetes e obesidade.

Rosa Hasan compara o sono polifásico a uma tática de guerra, ou seja, uma alternativa apenas para os casos em que a pessoa ficaria totalmente privada do sono. Em seu livro, o próprio Stampi tem o cuidado de esclarecer: “O que está sendo proposto aqui não é se o sono polifásico é preferível ao sono monofásico, nem que todos devem mudar agora para um comportamento de sonecas múltiplas como panaceia.”

Fonte: Revista Galileu

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